Venues, um ativo estratégico para a economia portuguesa
Quando falamos de infraestrutura estratégica em Portugal, pensamos quase automaticamente em aeroportos, portos, estradas, caminhos de ferro, redes energéticas ou telecomunicações. São ativos fundamentais para a competitividade do país e para a sua capacidade de atrair investimento, talento e atividade económica.
No entanto, existe uma infraestrutura frequentemente ignorada no debate público, mas que desempenha um papel cada vez mais relevante na economia contemporânea: os venues.
Centros de congressos, espaços para eventos corporativos, arenas, auditórios, centros culturais, hotéis com capacidade para grandes reuniões e recintos multifuncionais são hoje muito mais do que simples locais para acolher eventos. São plataformas de desenvolvimento económico, de projeção internacional e de dinamização territorial.
Num mundo onde a economia do conhecimento, a inovação e as relações empresariais dependem cada vez mais de encontros presenciais de elevada qualidade, os venues assumem um papel semelhante ao de outras infraestruturas consideradas críticas. São eles que permitem a realização de congressos internacionais, feiras profissionais, lançamentos de produtos, convenções empresariais, eventos culturais e encontros científicos que geram valor para múltiplos setores.
Os números demonstram isso mesmo. O turismo de negócios e eventos é reconhecido como um dos segmentos com maior impacto económico por visitante. Os participantes em congressos e eventos tendem a gastar mais, permanecem mais tempo nos destinos e contribuem para reduzir a sazonalidade da atividade turística. Mas o impacto vai muito além do turismo. Cada grande evento mobiliza cadeias de valor inteiras que incluem tecnologia, produção audiovisual, catering, logística, hotelaria, transportes, comunicação e serviços especializados.
Apesar desta relevância, Portugal continua a olhar para os venues de forma fragmentada. A informação sobre espaços está dispersa, os processos de seleção e contratação são frequentemente pouco eficientes e a visibilidade internacional da oferta nacional ainda está aquém do seu potencial.
Mais preocupante ainda é verificarmos que alguns dos destinos mais competitivos do país começam a enfrentar desafios ao nível da sua capacidade de acolhimento de eventos. Cascais é um exemplo paradigmático. Ao longo dos últimos anos, a pressão imobiliária e a transformação de alguns ativos turísticos têm reduzido a disponibilidade de unidades hoteleiras e espaços com capacidade para acolher eventos corporativos de grande dimensão. Trata-se de um destino com forte reputação internacional, mas cuja capacidade futura para competir no segmento MICE dependerá da preservação e reforço desta infraestrutura.
Ao mesmo tempo, existem regiões com enorme potencial por explorar. Fátima é talvez um dos melhores exemplos. Localizada no centro do país, com acesso direto à A1, uma oferta hoteleira robusta e capacidade para receber milhares de visitantes, reúne condições excecionais para se afirmar como um polo nacional de eventos e congressos. No entanto, continua a faltar uma infraestrutura dedicada que permita captar eventos de maior dimensão e diversificar a procura ao longo do ano.
Uma aposta estratégica em infraestruturas para eventos em Fátima poderia contribuir para reduzir a sazonalidade económica da região, hoje muito dependente do calendário religioso e dos períodos de maior afluência de peregrinos. Mais do que complementar a sua vocação histórica, permitiria criar uma dimensão de atividade económica, atraindo congressos, reuniões associativas, convenções empresariais e encontros profissionais.
Estes exemplos demonstram que pensar os venues como infraestrutura estratégica implica muito mais do que gerir espaços existentes. Significa planear capacidade futura, identificar oportunidades territoriais e garantir que o país dispõe das condições necessárias para competir num mercado global cada vez mais exigente.
A transformação digital desempenha também um papel decisivo. Tal como aconteceu na hotelaria, na mobilidade ou no comércio, os utilizadores esperam hoje transparência, rapidez e acesso imediato à informação. Os organizadores de eventos procuram soluções simples para descobrir espaços, comparar opções e tomar decisões com base em dados. Os venues que não acompanharem esta evolução arriscam perder relevância num mercado cada vez mais competitivo.
Portugal tem condições únicas para se afirmar como uma referência internacional na indústria dos eventos. Possui talento, segurança, acessibilidade, qualidade de vida e uma oferta diversificada de espaços. O desafio passa agora por reconhecer que os venues não são apenas locais onde acontecem eventos. São ativos estratégicos que ajudam a atrair investimento, gerar conhecimento, promover inovação e reforçar a posição do país no contexto internacional.
Se queremos uma economia mais competitiva, mais conectada e mais preparada para o futuro, está na altura de incluir os venues na conversa sobre as infraestruturas que realmente impulsionam o desenvolvimento de Portugal.